segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Convite para uma arte das profundezas - Louise Bourgeois no Brasil

Queridos amigos!

Depois de tanto tempo ausente, achei que a vinda de Louise Borgeois ao Brasil merecia um post nesse bolg esquecido. Em maio desse ano, para comemorar o aniversário do Carlos - destinatário de toda a minha poesia - visitei sua exposição "El retorno del reprimido" em Buenos Aires e a força e profundeza de sua obra me impactaram e surpreenderam profundamente. Assim, escrevi um artigo sobre elana disciplina de Formação estética e Arte Contemporânea, que frequentei no 1o semestre do ano, na UFRGS. Que sirva-lhes como convite a um passeio por SP ou RJ entre agosto e novembro desse ano para deixarem-se tocar por essa artista mal-dita.
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Por um pessimismo da força: a vida e obra de Louise Bourgeois a partir da percepção estética de Nietzsche
Pâmela Marconatto Marques[1]
Introdução

Em 1886, no prefácio à sua primeira obra - “O nascimento da tragédia”- , ao evocar os gregos como referência de arte pelo espanto, plenitude e vigor suscitados por sua tragédia, Nietzsche pergunta: “O pessimismo é necessariamente sinal do declínio, da decadência, do fracasso dos instintos cansados e debilitados”? E, ainda: “Existe um pessimismo da força?”[2]. Passados cinqüenta anos, a artista francesa Louise Bourgeois as responderia com uma arte fundada no trágico, alimentada pelos fantasmas nunca superados de sua infância, encarnada no grotesco, mas plena da pulsão de vida e transformação elogiadas pelo filósofo.
Nas páginas que seguem, a relação entre a vida e obra de Bourgeois e a percepção estética de Nietzsche serão exploradas, enquanto o diálogo póstumo do filósofo com alguns dos valores e conceitos da arte contemporânea também é facilitado.

1. A reinvenção do belo ou a transvaloração dos valores da estética moderna
        
Um dos pontos comuns entre a percepção estética de Nietzsche e a obra de Bourgeois é a afronta ao entendimento moderno do que é belo e, por conseguinte, justificativa da existência da arte.
Sobre o tema, deu-se uma das contribuições mais interessantes de Nietzsche para o campo: a problematização do que chama “socratismo estético”, que, pautado sobre a exaltação socrática da razão, traduz-se na noção de que tudo deve ser inteligível para ser belo. Essa compreensão, tipicamente moderna, está normalmente associada à idéia de que o valor da arte está na legitimidade do autor, na fidelidade dos traços à realidade, na compreensão de sua proposta e tema e na forma como se expressa (pintura ou escultura). A arte, nesse contexto, é uma narrativa linear e relaciona-se com o deleite causado pela visão do belo-moral-vistuoso.
Essa concepção está impregnada do que o autor chama de sobriedade, marcada pelas características do deus Apolo, deus grego da beleza, da perfeição, da harmonia, do equilíbrio e da razão. Essa sobriedade estaria comprometida com a razão iluminista e a moral cristã pregadora da abstenção, do controle e da negação dos excessos, todos eles representantes de uma patologia que Nietzsche proclama contrária e negadora da vida. Mesmo a percepção de Schopenhauer da arte como consolo metafísico – que, simplificando-a, realiza-se ao conduzir o observador a um estado de paz interior e ausência de pulsões capaz de livrar-lhe, ainda que momentaneamente, da angústia dos desejos não realizados - é combatida e superada.
 Em contraponto, o filosofo propõe uma estética trágica ou dionisíaca[3], capaz de despertar no artista e no observador “a disposição da qual pode vibrar o sentido, a força e o valor extraordinário de todas as coisas[4]”. Nessa concepção de arte, o belo é o capaz de produzir catarse, plenitude, tirando o homem do embotamento cotidiano e suscitando nele a potência de existir. Em conseqüência, nada que é visto em toda sua intensidade dramática pode ser considerado feio ou grotesco.
Desse modo, Nietzsche fala diretamente aos maculadores da “pureza” da arte moderna: os pós-modernos ou contemporâneos, identificados por Kaprow como expoentes da “vida como arte”, em oposição aos defensores de uma arte que bastava a si mesma -“arte como arte”-, com seus próprios artistas e temas, distantes da vida, das pulsões e do corpo dos homens[5]. Liga-se, também, à obra de Bourgeois, concebida a partir da dor e do sofrimento vividos.
Na exposição póstuma “O retorno do reprimido”, algumas das obras mais expressivas de Bourgeois desafiam o expectador que aguarda a visão apolínea ou mesmo o consolo metafísico de Shopenhauer. Sua arte é agressiva, pesada e muitas vezes obscura, provocando algo entre o estranhamento e a dor que só cabe no conceito de tragédia. Essas características são comuns à arte contemporânea, que, nas palavras de Severo:

(...) não oferece comodidade, muitas vezes provoca indisposição, constrange, perturba e conduz a reflexões sobre as condições instáveis de nossa própria inscrição existencial. (...) a experiência no plano da arte [contemporânea] muitas vezes assemelha-se a uma travessia pela estrada agreste e polifurcada da multiplicidade de significados – conexos, desconexos, dissonantes e complementares – atribuíveis às sensações empíricas. [6]

Obras como Spider e Couple IV evidenciam esse aspecto, a primeira fazendo referência à maternidade – mais especificamente, à relação da artista com sua mãe - e a segunda à vulnerabilidade da mulher – amputada – na relação amorosa.
 Nota-se que a obra de Bourgeois não se esgota nas categorias pintura/escultura. Apesar de conter elementos de ambas, transita por várias formas de expressão artística, confirmando a característica - apontada por Danto[7] como tipicamente contemporânea – de “absoluta liberdade estética” e nenhum limite material ou conceitual. Salienta-se que, por obras como Couple IV e a sequência Femme-Maison, em que a questão de gênero é abordada, além do diálogo com a psicanálise, a artista ficou conhecida como feminista no mundo da arte contemporânea.
Ressalta-se, ainda, que as características tipicamente apolíneas da beleza perfeita e da medida proporcional são subjugadas na obra de Bourgeois, que, para retratar estados psicológicos, recorre ao excesso, à desproporção e ao grotesco.  É nessa renúncia à perfeição da forma e à mensagem moralizante que a artista dialoga com a embriaguez dionisíaca defendida por Nietzsche, capaz de ungir o feio à exuberante, catártico, cheio de potência de liberdade, saúde e vida.
  
2. O estado de alma artístico ou a embriaguez do artista

Outro aspecto igualmente interessante da percepção estética de Nietzsche é o fato de ampliar o foco que, em Shopenhauer estava apenas no observador e compreender também o artista, na medida em que exalta um “estado de alma artístico” presente não somente na contemplação da obra, mas no momento de sua concepção. A esse estado de alma, Nietzsche chama “embriaguez dionisíaca”. É ela a responsável pela arte catártica recém mencionada, a única que, em sua opinião, merece existir.
Este estado artístico – definido por ele como uma condição fisiológica[8] - corresponde a um estado alcançado por todo aquele que, por vezes não mais do que uma fração de segundos, vê-se livre do véu de Maia[9], percebe o absurdo da existência e ousa criar-lhe novos sentidos[10]. O artista, assim, distingue-se por ser capaz de penetrar profundamente na própria experiência, no que a vida tem de essencialmente trágica, criadora, imprevisível e misteriosa e revelar ao mundo esse olhar e esse espanto.
Essa fisiologia da arte é facilmente identificada em Bourgeois. A artista via a arte como “forma de psicanálise”[11], por encontrar nela uma “via de acesso direto ao inconsciente”. Em sua opinião o artista, normalmente privado de poder em sua vida cotidiana, tem o dom da sublimação, tornando-se onipotente durante o ato criativo. Lembrando Nietzsche, Bourgeois define a criação artística como “uma forma de exorcismo, autoconhecimento e catarse”. Em uma de suas obras, a autora alça a arte à garantia de sanidade[12], lembrando a bela e conhecida afirmação de Nietzsche de que “apenas como fenômeno estético a vida se justifica”.
No entanto, são os “estados de vazio”, medo, vulnerabilidade e revolta, os temas mais freqüentes de seu trabalho. Em um deles, intitulado “Claustrophobia and Omnipotence” a autora afirma: “quero, logo posso. Posso, mas temo. Temo, logo vivo.” Em outra, “I’m afraid”, a autora diz: “Tenho medo do silêncio. Tenho medo do escuro. Tenho medo da queda. Tenho medo da insônia. Tenho medo do vazio. Falta algo? Sim. Falta algo e sempre faltará. A experiência do vazio.” Ressalta-se que mesmo o vazio e o medo não são tratados da forma como Nietzsche entenderia “decadente” ou “negadora de vida”, mas revelam, em oposição, uma afirmação da vida em tudo que revela e propõe, uma vontade dilacerante de viver inclusive o vazio e o medo.
Essa potência de vida e exuberância da vontade são confirmadas e uma de suas obras sem título e na conhecida como “I have been to hell and back”, onde, respectivamente, a artista afirma “eu não busco, eu encontro. Eu não durmo, eu desperto. Eu não tiro, dou. Eu não escondo, exponho” e “Eu estive no inferno e voltei. E deixe-me contar: foi maravilhoso”. 

Há, aqui, o que Nietzsche chama de “a arte de se por em cena para si mesmo”[13] e que em muito aproxima-se da noção contemporânea já mencionada da vida como arte. Percebe-se ainda que, ao enfrentar temas polêmicos como o estupro, o ódio materno e o parricídio sem a usual companhia dos valores cristãos do decoro e do pudor, Bourgeois alcança o que o filósofo descreve como “ficar acima da moral: e não só ficar em pé, com a angustiada rigidez de quem receia escorregar e cair a todo instante”[14].  
É interessante perceber que Nietzsche atribui à arte dionisíaca o poder não só de comunicar, mas de ativar no observador esse aguçamento de consciência semelhante ao espanto provocado por uma revelação. Nesse sentido, há uma sinergia, um diálogo de almas, uma comunhão de espíritos que faz com que o filósofo afirme que “a arte fala apenas aos artistas”[15]. Sem essa predisposição à embriaguez não há produção artística e tampouco emoção diante da arte. Mas há algo mais nessa constatação: se a arte fala apenas aos artistas, aquele que é tocado por ela também é reconhecido como tal, por seu estado de alma sinérgico. Assim, se é capaz da embriaguez na observação, também é artista de sua própria vida e reconhece a dor e a beleza de existir. Essa percepção da arte e do “estado de alma artístico” novamente coloca Nietzsche em diálogo com a arte contemporânea e em sério confronto com a moderna, na medida em que a identidade do artista era elemento central para a legitimidade da obra.  
Constata-se, por fim, que a arte de Bourgeois, vista a partir de Nietzsche, possibilitou a continuidade de sua vida na medida em que destruiu, recriou, e deu novo sentido à sua existência. A obra de Bourgeois transfigurou a dor, o sofrimento, a morte, o medo e o vazio em autoconhecimento, vontade de saúde e pulsão de vida. Ela revela uma vida interior transbordante, plena em todas as suas rachaduras, capaz de fazer sentir, como sugere uma de suas obras, “hoje, aqui e agora, a batida do coração”[16].

Considerações finais

Em “nós os incompreensíveis”, Nietzsche escreve:

Alguma vez nos queixamos de ser mal entendidos, mal conhecidos, confundidos, difamados, mal escutados e ignorados? Eis precisamente a nossa sina e também a nossa distinção; não respeitaríamos suficientemente a nós próprios, se desejássemos que fosse diferente. Somos confundidos com outros – nós mesmos crescemos, mudamos continuamente, largamos a velha casca, trocamos de pele a cada primavera, tornamo-nos cada vez mais jovens, mais futuros, mais elevados, mais fortes, impelimos nossas raízes cada vez mais poderosamente na profundeza – no mal - , enquanto abraçamos cada vez mais carinhosamente e mais amplamente o céu, absorvendo cada vez mais avidamente a sua luz com todos os nossos ramos.(...)

Essa poderia ser sua própria descrição enquanto filósofo mal(-)dito, mas também falaria perfeitamente à sina dos artistas contemporâneos, esses incompreensíveis, entre os quais está Louise Bourgeois. No entanto, a compreensibilidade é um dos valores que Nietzsche propõe transvalorar em nome da catarse, do estupor e do espanto, geralmente estranhos à razão, pertencentes à esfera dos sentidos, domínio de Dionísio.
Louise Bourgeois conhecia essa esfera, comum ao sonho, ao inconsciente, às pulsões de morte, mas também de vida, onde é possível destruir e recriar, inclusive a si próprio. Ao penetrar fundo em suas próprias dores, Bourgeois trouxe ao mundo uma arte vigorosa, onde o mais cruel e hediondo, o mais grotesco, sombrio e miserável se torna belo à medida que é visto em toda a sua intensidade dramática. Assim, “o que põe ao alcance de todos é a possibilidade de sentir, ver e viver através da obra o que muito provavelmente não seriamos capazes de viver por nos mesmos” senão isso ao menos a “possibilidade de contemplar diante de nos o que jamais supúnhamos ser traduzido[17]”.
Tudo, na arte de Bourgeois, é um dizer sim à vida, é uma opção pela existência artística em vez da morte interior. E nessa escolha, ela é reconhecida por outros artistas contemporâneos, mas, provavelmente, também o seria por Nietsche, esse mal-dito que acreditou num pessimismo da força, essa coragem de ser artista da própria vida no palco absurdo da existência.  



Referências Bibliográficas

DANTO, A.C. Após o fim da arte: a arte contemporânea e os limites da historia. São Paulo: Odysseus, 2006, pp 3-21;
DIAS, R. Nietzsche e a fisiologia da arte. In: Nietzsche e os gregos: arte, memória e educação: assim falou Nietzsche V. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. Pp 195-204;
FUNDACIÓN PROA. Loiuse Bourgeois: el retorno de lo reprimido. Buenos Aires: Tenaris Org Tec, 2011;
NIETZSCHE, F. O nascimento da Tragédia ou Helenismo e Pessimismo. Tradução, notas e posfácio J. Guinsburg.. São Paulo: Companhia das Letras, 1992;
_____________. A Gaia Ciência. Tradução, notas e posfácio Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001;
PINTO, R. S.D.M. Nietzsche e a Gaia Ciência. Revista Filósofos. Vol 4, No. 01, edição de jan/jun de 1999. Pp 87-103;
SEVERO, A. Oscilações no horizonte. In: SEVERO, A. BERNARDES, M.H. Horizonte Expandido. Porto Alegre: NAU, 2010. Pp 35-51;
SHOPENHAUER. A. O mundo como vontade e como representação. Tradução Jair Barboza. São Paulo: Unesp, 2005.




[1] Aluna regular do Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
[2] NIETZSCHE, F. O nascimento da Tragédia. Editora Escala: São Paulo, 2009.
[3] Dionísio é o deus grego do vinho, das festas, dos ciclos vitais, mas, principalmente, o deus da embriagues.
[4] PINTO, R. S.D.M. Nietzsche e a Gaia Ciência. Revista Filósofos. Vol 4, No. 01, ediçao de jan/jun de 1999. Pp 87-103.
[5] SEVERO, ª Oscilações no horizonte. In: SEVERO, A. BERNARDES, M.H. Horizonte Expandido. Porto Alegre: NAU, 2010. Pp 35-51.
[6] Idem. Pg. 42.
[7] DANTO, A.C. Após o fim da arte: a arte contemporânea e os limites da historia. São Paulo: Odysseus, 2006, pp 3-21.
[8] Para considerações mais profundas sobre o tema, consultar DIAS, R. Nietzsche e a fisiologia da arte. In: Nietzsche e os gregos: arte, memória e educação: assim falou Nietzsche V. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. Pp 195-204.
[9] O véu de Maia é apontado por Shopenhauer como metáfora para o olhar do homem sobre a realidade. Esse olhar é sempre superficial e incapaz de penetrar a essência do mundo.
[10] No aforisma 58 de Gaia Ciência, Nietzsche adverte “somente enquanto criadores podemos destruir”.Ele se refere à criação artística, à uma poética da existência, capaz de transvalorar os valores da moral cristã e afirmar a vida em toda a sua potência.
[11] FUNDACIÓN PROA. Loiuse Bourgeois: el retorno de lo reprimido. Tenaris Org Tec.: Buenos Aires, 2011.
[12] A obra referida é a aquarela sem título conhecida como “art is a guaranty of sanity”.
[13] Extrato do aforisma 78 “Pelo que deveríamos ser gratos” de “A Gaia Ciência”.
[14] Extrato do aforisma 107 “Nossa derradeira gratidão para com a arte”de “A Gaia Ciência”.
[15] Nietzsche apud DIAS.
[16] Parte final do texto pintado na aquarela “The beating of the heart”, de 2006.
[17] PINTO, R. S.D.M. Nietzsche e a Gaia Ciência. Revista Filósofos. Vol 4, No. 01, ediçao de jan/jun de 1999. Pp 87-103.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A 2a da série "Poesia feita em casa"

Canção para o homem que dorme


  
Dorme, querido...

Dorme, que teu sono é a medida exata do meu sonho

Ainda que eu esteja aqui:

uma mulher desperta

ao lado de um homem que adormece



Dorme, que teu sono me faz mais desperta

E assim eu sinto

que zelando pelo teu repouso

Eu te protejo o corpo, frágil e inerte

E a alma, recolhida em sonho



Dorme, querido

Que a certeza de que não sonho

Vem de saber-me guardiã de outro sonho

Vem de estar a teu lado

Enquanto percorres outros caminhos, países e mundos



Dorme

Enquanto adivinho, sedenta,

A abundância nos teus lábios maduros

Dorme o tempo preciso para que eu descubra

As matizes dos teus pêlos

Esconderijos nos teus contornos

Poesia nos teus cabelos



Dorme até que eu te saiba tanto

Que sejas mais meu que meu próprio sonho

Que teu corpo se torne uma ordem de detalhes

E eu saiba de cor teus ombros, teus joelhos

A linha incerta dos teus cílios

Os ruídos do teu descanso



Dorme que é pesado o dia

E leve a certeza de que em breve ele finda

para um novo começo

Dorme que a liberdade veio contigo assim:

Quando me vi uma mulher desperta

Ao lado de um homem que dormia.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Canção do amor exigente ou "Poesia de letra e carne"

Canção do amor exigente




Quero a palavra que se insinua


entre teu lábio e a língua.


Quero prová-la crua,


despreocupada com a rima.




Quero tomar-te idéias e revê-las,


como livros que, emprestados,


rabisca-se as bordas, reescreve-se,


devolver-te idéias novas.




Quero a fusão ideal


da tua linha rebuscada


com meus versos caseiros


cheios de pudores.




Quero, após, um passo além...




Depois da palavra, o hálito.


Depois da idéia, a escrita.


Depois do pudor, o ato.


Depois da fusão ideal, a real.




Transformar tuas idéias em minha carne.


Inverter teus pensamentos em minha matéria.


Suplantar tua memória em meu perfume.


Converter tua lembrança em minha presença.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Da série "Poesia feita em casa"

Do estranho demônio do amor




Não faço poemas para o mundo

Sou dos poetas egoístas

Que escrevem para as gavetas

A quem basta, por meio dos versos, compreender-se.



E assim é que nesta manhã cinza

eu sento mais uma vez à janela

E espero, ao findar-te, poema,

Sair daqui mais sóbria, mais livre



Sem esta pulsão de torpor e sangue,

Que sendo vida demais quase me impede

de respirar sem sufocar-me

de dormir sem sobressalto

de comer sem enjoar-me



Eu... que nem mesmo olhava a paixão com olhos de cobiça,

Que vivia, soturna, uma planície infinda

de amores-amigos



Eu...que me vangloriava entre os amantes

De bastar-me do amor as grandes obras escritas

De, sendo poeta, ainda que egoísta,

bastarem-me as rimas inspiradas

em romances de outros...



Eu...que agora me vejo entre a mágoa e a míngua

Querendo do amor, comê-lo inteiro

Querendo de um homem sua carne, seu pêlo,

seu prazer e seu descanso.



Eu...Que sempre fui a leveza,

Quero mais do peso que faz curvar

Quero vê-lo em transe, em titubeio

Quero vê-lo cair, hesitar.



E quero tê-lo, por inteiro, nesta fraqueza,

Neste incessante desejar

Quero dar-lhe colo, quero sê-lo

Tanto que não se reconheça mais

fora de mim

Tanto que não sejamos

sem sermos dois

Tanto que eu lhe deseje matar

e matando-o de angústia, de medo e de amor

Ah... Eu reviva!

Ah... Eu possa voltar a respirar!

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Clarice, Por não estarem distraídos

Falando, provavelmente, sobre uma dessas tardes minhas em Porto Alegre, que, como diz um outro livro seu, são "invivíveis" e, por isso, precisam ser escritas.


Por Não Estarem Distraídos

(Clarice Lispector)




Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.
 Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles.
Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.

Como eles admiravam estarem juntos!

Até que tudo se transformou em não.

Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas.

Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali.

Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso.

Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos.

Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham.

Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram.

Foram então aprender que, não se estando distraído,

o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios.

Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

Clarice, para Carol

Conversando com uma amiga, numa dessas noites em que saímos para resolver a vida, ela me lembrou o conto "Uma Esperança", de Clarice. Eu, que ando encantada pela Clarice romancista, havia, mesmo, esquecido dos seus contos cheios de potência de vida.  Conheci, há algum tempo, a psicanalista Clarissa Pínkola Estés, que também é "cantadora" e escritora. Ela, que há mais de 30 anos atende mulheres, diz, no seu livro "Mulheres que correm com os Lobos" que, algumas vezes, os insights sozinhos já não são capazes de curar e que é preciso, então, atuar diretamente no inconsciente. A tese de Clarissa é a de que os contos são capazes de chegar aí. Cada vez que leio um conto como o da Clarice, sinto, meio intuitivamente, que é exatamente isso que ele provoca em mim: ele atalha caminhos e impacta, surdo, em algum lugar desconhecido.

Uma esperança
                                     (Clarice Lispector)
Aqui em casa pousou uma esperança. Não a clássica, que tantas vezes verifica-se ser ilusória, embora mesmo assim nos sustente sempre. Mas a outra, bem concreta e verde: o inseto.

Houve um grito abafado de um de meus filhos:

- Uma esperança! e na parede, bem em cima de sua cadeira! Emoção dele também que unia em uma só as duas esperanças, já tem idade para isso. Antes surpresa minha: esperança é coisa secreta e costuma pousar diretamente em mim, sem ninguém saber, e não acima de minha cabeça numa parede. Pequeno rebuliço: mas era indubitável, lá estava ela, e mais magra e verde não poderia ser.
- Ela quase não tem corpo, queixei-me.
- Ela só tem alma, explicou meu filho e, como filhos são uma surpresa para nós, descobri com surpresa que ele falava das duas esperanças.
Ela caminhava devagar sobre os fiapos das longas pernas, por entre os quadros da parede. Três vezes tentou renitente uma saída entre dois quadros, três vezes teve que retroceder caminho. Custava a aprender.
- Ela é burrinha, comentou o menino.
- Sei disso, respondi um pouco trágica.
- Está agora procurando outro caminho, olhe, coitada, como ela hesita.
- Sei, é assim mesmo.

- Parece que esperança não tem olhos, mamãe, é guiada pelas antenas.

- Sei, continuei mais infeliz ainda.

Ali ficamos, não sei quanto tempo olhando. Vigiando-a como se vigiava na Grécia ou em Roma o começo de fogo do lar para que não se apagasse.

- Ela se esqueceu de que pode voar, mamãe, e pensa que só pode andar devagar assim.

Andava mesmo devagar - estaria por acaso ferida? Ah não, senão de um modo ou de outro escorreria sangue, tem sido sempre assim comigo.

Foi então que farejando o mundo que é comível, saiu de trás de um quadro uma aranha. Não uma aranha, mas me parecia "a" aranha. Andando pela sua teia invisível, parecia transladar-se maciamente no ar. Ela queria a esperança. Mas nós também queríamos e, oh! Deus, queríamos menos que comê-la. Meu filho foi buscar a vassoura. Eu disse fracamente, confusa, sem saber se chegara infelizmente a hora certa de perder a esperança:

- É que não se mata aranha, me disseram que traz sorte...

- Mas ela vai esmigalhar a esperança! respondeu o menino com ferocidade.

- Preciso falar com a empregada para limpar atrás dos quadros - falei sentindo a frase deslocada e ouvindo o certo cansaço que havia na minha voz. Depois devaneei um pouco de como eu seria sucinta e misteriosa com a empregada: eu lhe diria apenas: você faz o favor de facilitar o caminho da esperança.

O menino, morta a aranha, fez um trocadilho, com o inseto e a nossa esperança. Meu outro filho, que estava vendo televisão, ouviu e riu de prazer. Não havia dúvida: a esperança pousara em casa, alma e corpo.

Mas como é bonito o inseto: mais pousa que vive, é um esqueletinho verde, e tem uma forma tão delicada que isso explica por que eu, que gosto de pegar nas coisas, nunca tentei pegá-la.

Uma vez, aliás, agora é que me lembro, uma esperança bem menor que esta, pousara no meu braço. Não senti nada, de tão leve que era, foi só visualmente que tomei consciência de sua presença. Encabulei com a delicadeza. Eu não mexia o braço e pensei: "e essa agora? que devo fazer?" Em verdade nada fiz. Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido em mim. Depois não me lembro mais o que aconteceu. E, acho que não aconteceu nada.

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Como, geralmente, um conto me lembra uma música, Julieta Venegas e Marisa Monte dão leveza ao peso de Clarice:
http://www.youtube.com/watch?v=Cd2mcbMsoeE&feature=related

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Sub species aeternitatis - ou "Poesia de pó de estrelas"

Sub species aeternitatis  (com Demétrio Cherobini)


 I

Sou inteira, poeira estelar
mesmo estes pés, com que me aproximo,
estes olhos de sal com que te miro
hão de deixar-nos

Eu, amante do infinito,
já não creio no que não perdura
e renuncio, erma, a este olhar noturno com que me tentas
à tua pele, ao teu pelo âmbar
e sua transitoriedade

Quero de ti o que há de ficar:
a aura macia com que acolhes meu ser
a palavra com que me acaricias
o segredo da nossa comunhão

Quero de ti a lembrança do perfeito
a negação do tédio
a reinvenção do amor

Aceita de mim este pequeno gesto:
um afago na forma de poesia
com ele meus lábios,
meus gestos,
meus restos,
aceita essa carne, esse corpo, esse instante
celebremos juntos a estrela breve de nossas vidas!

II

Sim, renunciemos ao breve
ao mesmo tempo em que celebramos o breve:
gesto, jeito, gosto, resto, rosto,
o que é manifesto e o que está posto,
o que, em si mesmo, é leve
e se vai com o vento,
o que vive apenas um momento...

Celebremos corretamente
pois um banquete é mais
que a soma dos seus ingredientes
O que parado jaz
façamos com que se movimente
para que as paralelas ideais
possam tocar-se lá (ali) na frente...

É assim aos olhos do eterno:
o que é bruto se torna terno;
o que é feio se faz bonito;
o que é breve prova-se infinito...

E eu, amente do infinito, poeira estelar,
no que não dura, não creio.
Eu vejo o fim, ao ver o meio;
ao ver a gota, eu vejo o mar.
Coloco cada parte em ação:
mente, corpo, carne, coração...
e do que era um indecifrável modo
emerge um organizado todo.

....e para amar o todo em cada parte
será precisa algo mais que arte?